“Sim, sei bem que nunca serei alguém. Sei de sobra que nunca terei uma obra, sei, enfim, que nunca saberei de mim (…)”
Acordei sobressaltada, apenas conseguia repetir freneticamente aquela frase “sei , enfim, que nunca saberei de mim”, a frase que tinha lido nos livros grandes e sem graça da mamã.
Abri os olhos, olhei em redor e vi, na penumbra, que aquele sitio não era o meu, aquelas paredes não eram as minhas, faltava-lhes cor, os brinquedos, os livros coloridos da Anita na estante da frente. Aquele quarto não era assim, era frio austero, sem cor, sem amor, banhado de cinzentos tristes e estantes semi-vazias cobertas de pó.
A porta estava entreaberta e dela vinha uma luz fraca e um ruído familiar. Levantei-me rapidamente pois queria sair daquele espaço sufocante e ir ao encontro daquela luz acolhedora. Abri a porta a medo e rapidamente vislumbrei o rosto triste e molhado do mano. Apenas uma coisa me veio à cabeça: Avó! Sei que, naquele momento, senti um desespero total, uma dor intensa no peito, uma sensação de abandono que para sempre ficou comigo, porque aquela foi a pior perda que alguma vez tive.
Sei que corri desesperadamente para aquele quarto que momentos antes me parecera tão frio e que agora se convertera no meu refúgio. Saltei para a cama, abracei as pernas , deixando que aquele medo, aquela angustia, aquela tristeza se apoderassem de mim. Ao verter a primeira lágrima, senti uma mão suave que me acariciava os caracóis, levantei a cabeça e vislumbrei a minha tia-amiga, à qual me agarrei e deixei que me embalasse ao som de momentos, daqueles momentos inesquecíveis, que para sempre guardarei, por serem os momentos que me marcaram toda a infância, aquelas tardes soalheiras em que me deitava sobre o seu peito e ouvia aquele pulsar vivo, aqueles momentos em que sem medo nos arriscávamos a sonhar com o futuro, e um futuro tão longe... Deixei levar-me por esses sonhos bons … Esse seria o último sonho da minha infância.

ei, o futuro é para a frente.
ResponderEliminarGOSTO MUITO! :D
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