terça-feira

Estou entusiasmada, muito mesmo, não o vou negar. Avizinha-se uma nova etapa que anseio cada vez mais. Apetece-me deixar agora tudo para trás e correr, voar, com o tempo, nestes escassos meses que faltam. Sinto remorsos por não sentir remorsos por tudo o que vai ficar para trás. Talvez daqui a uns anos realmente valorize esta etapa, mas neste momento, o importante, o realmente importante é o que se segue.
Estes anos foram bons, não o vou negar, andei muito de um lado para o outro, conheci muita gente, amei muitas caras, brinquei muito, ri muito. Contudo, estão ainda muito presentes os aspectos negativos, as olheiras das noites mal dormidas, ainda não passaram. O perfume, volta e meia, numa brisa, ainda me faz viver tudo outra vez. Tudo me marcou muito.
A mochila está, ainda, sempre feita, pronta para partir. Partir, agora sim, como uma nómada independente, como alguém que trilha o seu caminho SOZINHA. Não, não vou negar que me agrada ser livre.

segunda-feira

7

"Nove anos procurou Sete-Luas. Começou por contar estações, depois perdeu-lhes o sentido. Nos primeiros tempos calculava as léguas que andava por dia, quatro, cinco, seis, mas depois confundiram-se-lhe os números, não tardou que o espaço e o tempo deixassem de ter significado, tudo se media em manhã, tarde, noite, chuva, soalheira, granizo, névoa e nevoeiro, caminho bom, caminho mau, encosta de subir, encosta de descer, planínie, montanha, praia de mar, ribeira de rios, e rostos, milhares e milhares de rostos, rostos sem número que os dissesse e de entre os rostos, os das mulheres para as perguntas, os dos homens para ver se neles estava a resposta.
Para sabermos a idade que vai tendo basta acrescentar-lhe um ano de cada vez, por cada mês tantas rugas, por cada dia tantos cabelos brancos.
Milhares de léguas andou Sete-Luas, quase sempre descalça. A sola dos seus pés tornou-se espessa, fendida como cortiça.
Encontrou-o. Seis vezes passava por Lisboa, esta era a sétima.Caminhava no meio de fantasmas, de neblinas que eram gente. Entre os mil cheiros fétidos da cidade, a aragem nocturna trouxe-lhe o de carne queimada.
São onze os supliciados. A queima já vai adiantada, os rostos mal se distinguem. Naquele extremo arde um homem a quem falta a mão esquerda.  E uma nuvem fechada está no centro do  seu corpo. Então Sete-Luas disse, Vem. Desprendeu-se a vontade de Sete-Sois, mas não subiu para as estrelas, se à terra pertencia e a Sete-Luas"

Memorial do Convento (adaptado)