segunda-feira

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"Nove anos procurou Sete-Luas. Começou por contar estações, depois perdeu-lhes o sentido. Nos primeiros tempos calculava as léguas que andava por dia, quatro, cinco, seis, mas depois confundiram-se-lhe os números, não tardou que o espaço e o tempo deixassem de ter significado, tudo se media em manhã, tarde, noite, chuva, soalheira, granizo, névoa e nevoeiro, caminho bom, caminho mau, encosta de subir, encosta de descer, planínie, montanha, praia de mar, ribeira de rios, e rostos, milhares e milhares de rostos, rostos sem número que os dissesse e de entre os rostos, os das mulheres para as perguntas, os dos homens para ver se neles estava a resposta.
Para sabermos a idade que vai tendo basta acrescentar-lhe um ano de cada vez, por cada mês tantas rugas, por cada dia tantos cabelos brancos.
Milhares de léguas andou Sete-Luas, quase sempre descalça. A sola dos seus pés tornou-se espessa, fendida como cortiça.
Encontrou-o. Seis vezes passava por Lisboa, esta era a sétima.Caminhava no meio de fantasmas, de neblinas que eram gente. Entre os mil cheiros fétidos da cidade, a aragem nocturna trouxe-lhe o de carne queimada.
São onze os supliciados. A queima já vai adiantada, os rostos mal se distinguem. Naquele extremo arde um homem a quem falta a mão esquerda.  E uma nuvem fechada está no centro do  seu corpo. Então Sete-Luas disse, Vem. Desprendeu-se a vontade de Sete-Sois, mas não subiu para as estrelas, se à terra pertencia e a Sete-Luas"

Memorial do Convento (adaptado)

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